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MAURÍCIO

murdochwilliam28
12 minutes ago
3 min read

Sobre meu querido amigo Maurício.




 

Soube ontem da morte dele, mas a ficha não caiu como deveria. Caiu agora cedo, hoje, 06 de novembro de 2026, às 5h45, quando acordei. Fiquei muito triste ao pensar na partida de um amigo que, embora eu tivesse relativamente pouco contato, apreciava profundamente. Apenas pela sua pessoa.

 

Para mim, ele era, por definição, o pobre do Evangelho. Vivia na certeza de que Deus há de prover — e Deus provia através dos muitos amigos. Nem um pardal caía sem o Senhor saber. Finalmente Deus o chamou, após viver nessa pobreza por dez anos. Dez anos como morador da Urca.

 

Era o nosso mendigo. Sempre sentado na amurada, seja do lado da farmácia, seja do lado do jornaleiro. Não conhecia mais fundo da sua vida porque ele era reservado, mas seu olhar era limpo. Era uma boa pessoa. Simpático. Quando eu passava, ele sempre tinha algo a dizer: perguntava se eu estava bem ou se lembravam que a Aninha já tinha passado com o Milo.

 

Todas as vezes que o vi doente, procurei ajudar, seja com medicamentos, seja demonstrando interesse por sua saúde. Mas logo vi que ele já era querido por toda a vizinhança. A farmácia certamente lhe dava algum antitérmico em caso de resfriado e o ajudava no tratamento de uma inflamação no pé. Me lembro de uma vez em que lhe dei um bom tênis, sabendo que talvez não durasse com ele... Não sei se outro mendigo pegava ou se ele trocava por alguma coisa; isso era da liberdade dele, e eu nunca ficava perguntando.

 

Às vezes, ele aparecia com os cabelos muito bem cortados e a barba aparada; alguém ali na vizinhança o ajudava. Os banhistas o conheciam e eram simpáticos a ele. E, pelo tempo que o conhecia, parecia que ele iria durar para sempre. Depois soube que tinha menos de sessenta anos.

 

Mas não iria durar para sempre... Um dia ele sumiu. Na volta da igreja, aos domingos, com a Glória, sempre parávamos para uma conversinha rápida. Mas, em um domingo, não o encontramos no lugar de costume. Me informaram que tinha sido levado por uma ambulância. Procurei saber para onde o levaram: uma UPA. Por minha condição física, eu não tinha muito como investigar além disso, mas pensei que em breve o veria de novo ali, firme e forte.

 

A notícia, porém, foi outra. Hospital e, depois, a partida para a vida maior, deixando o vazio de sua presença entre nós.

 

Ele vivia ao ar livre; essa era a escolha dele. Dormia no chão, mas protegido. O que leva alguém a preferir isso? Não sei, mas era a opção dele, e pelo menos o pessoal da Urca lhe dava o sustento necessário. Era um homem bom. De olhar limpo. Sempre alegre. E se foi.

 

Fui a campo hoje mesmo para entender o que aconteceu e acabei descobrindo o desfecho — e a beleza — desse fim de jornada. Falei com o guarda-vidas, com dois garis da região, com um vigia da praça, com outros mendigos... E o dia de hoje foi valioso. Descobri por eles que a Aurimar, da Associação de Moradores, tomou para si os cuidados do Maurício como uma alma boa. O Maurício certamente estava mexendo os pauzinhos lá no Céu!

Primeiro ele foi para a UPA, depois para o Hospital Geral de Bonsucesso. Ela buscou parentes, tentou achar a família, mas não encontrou. Mesmo assim, cuidou dele até o fim, visitando-o com frequência. Ele estava com câncer e já quase não andava.

 

Nas horas finais, a Aurimar, um anjo,  cuidou de todos os preparativos do funeral, reconhecendo o corpo e evitando que ele fosse enterrado como indigente. E que graça: hoje mesmo consegui uma foto dele! Ele teve um enterro digno e bonito no Caju, com carro levando o caixão e coroas de flores. Lá repousa agora, tendo tido dignidade até no fim, com os cabelos cortados e a barba feita. Falei com o guarda-vidas, com dois garis da região, com um vigia da praça, com outros mendigos... E o dia de hoje foi valioso.

Sobre a foto que abençoadamente a Aurimar me enviou, antes eu tinha procurado inutilmente no Google. São pessoas que lá não aparecem... São invisíveis para o mundo, a não ser que tenham sofrido alguma violência pública.

Resta agora rezar por ele, pedir por ele na missa. Lembrando que Jesus se identificava com os pobres, e com certeza se identificava com este. Na sua presença quieta, o Maurício era um profeta; Deus, sem dúvida, o tem bem perto.

Boa estada aí no Céu, Maurício. Peça por nós que ficamos por aqui. Que Deus nos abençoe!

Na missa do próximo domingo, ele será lembrado.

 

 
 
 

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