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A graça de Deus e a eficácia do Sacramento do Matrimônio

murdochwilliam28
10 minutes ago
8 min read

Estive aqui considerando que com os comportamentos cada vez mais egocêntricos das pessoas, até pelo uso de equipamentos individuais que, embora permitam contato com muitos, não garantem um relação próxima e duradoura entre pessoas. O tédio costuma corroer os relacionamentos, inclusive as amizades. Pensei então, como é que o Matrimônio cristão católico resistirá a estas variedades? Como, até, se fortalecerá?

Aqui é que entra o dado especial: trata-se de um Sacramento. Garantido pelo Espírito Santo.


Há uma pergunta que merece ser feita com toda a seriedade: se o Matrimônio é verdadeiramente um Sacramento, a graça de Deus pode influenciar a duração e a felicidade da vida conjugal? Mais ainda: se dois esposos vivem autenticamente a sua fé, participam da vida da Igreja, recebem os Sacramentos e procuram conformar sua vida ao Evangelho, seria razoável esperar que seu casamento tivesse maior estabilidade e felicidade do que aquele em que Deus permanece praticamente ausente?

A resposta da nossa Igreja Católica é afirmativa. Mas é necessário compreender corretamente o que significa a graça sacramental. A graça não transforma automaticamente duas pessoas em esposos perfeitos, não elimina as diferenças de personalidade, não impede as tentações e não torna impossível uma crise matrimonial. A graça respeita a liberdade humana. Deus oferece sua ajuda; o homem precisa acolhê-la e cooperar com ela.

O que significa ser um "casamento cristão"?

Antes de olhar para as estatísticas, é necessário fazer uma distinção fundamental. Não é suficiente perguntar se uma pessoa se declara cristã. Existe uma enorme diferença entre ser nominalmente cristão e viver como cristão.

Se incluirmos como "cristãos" todas as pessoas que afirmam acreditar em Cristo, mas que não rezam, não participam da Missa, não recebem os Sacramentos e não procuram orientar sua vida pelos ensinamentos de Cristo, as diferenças estatísticas em relação à população não religiosa tendem a diminuir consideravelmente.

Quando, porém, se examina a prática religiosa efetiva, aparece uma realidade diferente. Pesquisas sobre religião e estabilidade matrimonial encontram, em determinados grupos, taxas significativamente menores de divórcio entre pessoas que praticam regularmente sua religião. Algumas análises apontam reduções da ordem de 27% a 50%, dependendo da população estudada e da definição utilizada.

Isso não demonstra matematicamente que "Deus causa a redução dos divórcios". Estatísticas não conseguem medir diretamente a graça sobrenatural. Mas o resultado é perfeitamente compatível com aquilo que a Igreja afirma: uma fé realmente vivida pode transformar a maneira como uma pessoa compreende o amor, o compromisso, o perdão, a sexualidade, os filhos, o sofrimento e a própria finalidade da vida.

No Brasil, os dados do IBGE também são motivo de reflexão. O tempo médio de duração dos casamentos que terminaram em divórcio caiu significativamente nas últimas décadas, chegando a aproximadamente 13,8 anos. Além disso, uma parcela muito expressiva dos divórcios ocorre antes de dez anos de casamento. Esses números não nos permitem descobrir por que cada casamento terminou. Podem existir infidelidade, violência, incompatibilidade, dificuldades econômicas, vícios, problemas psicológicos, abandono, imaturidade ou simplesmente a decisão de um dos cônjuges de não continuar.

Entretanto, existe uma característica humana que merece atenção: o homem pode se cansar daquilo que possui e imaginar que a felicidade está naquilo que ainda não possui.

A novidade exerce uma atração poderosa. Um novo relacionamento pode parecer mais emocionante do que aquele que atravessou anos de rotina. Uma nova experiência pode parecer mais interessante do que a vida cotidiana. E assim pode surgir a perigosa ilusão de que o problema não está na nossa maneira de amar, mas na pessoa que amamos.

Entretanto, nem toda novidade destrói um casamento. Ao contrário: experiências novas vividas conjuntamente podem fortalecer a união. Viajar, descobrir novos lugares, aprender algo juntos, enfrentar dificuldades e construir novos projetos podem renovar o relacionamento. O problema não é a novidade; é quando a novidade passa a ser procurada como substituição da aliança existente.

O amor cristão não é apenas sentimento!

Aqui encontramos uma diferença fundamental entre a concepção cristã do amor e uma concepção puramente sentimental.


A cultura contemporânea frequentemente apresenta o amor como um sentimento que deve permanecer intenso para que o relacionamento continue. Quando o sentimento desaparece, conclui-se que "o amor acabou".

O cristianismo apresenta uma visão muito mais profunda.

Amar é também querer o bem do outro, entregar-se ao outro e permanecer fiel à palavra dada. O amor matrimonial não consiste somente em dizer "eu amo você hoje", mas em afirmar: "eu escolho você e continuarei escolhendo você."

É justamente nesse ponto que o Sacramento do Matrimônio revela sua grandeza.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que, entre os batizados, o Matrimônio válido foi elevado por Cristo à dignidade de Sacramento. Os esposos cristãos recebem, portanto, uma graça própria do estado matrimonial. Não se trata apenas de uma bênção exterior colocada sobre uma união humana: a própria união matrimonial torna-se instrumento da graça de Cristo.

O Catecismo afirma que Cristo permanece com os esposos e lhes dá a força necessária para tomar sobre si suas próprias cruzes, segui-Lo, perdoar-se mutuamente, carregar os fardos uns dos outros e submeter-se "uns aos outros no temor de Cristo" (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1641-1642).

Isso é extraordinário. O Sacramento não significa simplesmente que Deus está presente na cerimônia do casamento. Significa que Cristo permanece presente na própria vida matrimonial.

"Já não são dois, mas uma só carne"

O ensinamento de Jesus sobre o casamento é radical:

"Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe."

A união matrimonial, para Cristo, não é simplesmente um contrato que duas pessoas podem cancelar quando deixam de sentir a mesma atração. Existe uma realidade nova criada pelo consentimento dos esposos.

Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, apresenta o matrimônio como uma "íntima comunidade de vida e de amor conjugal". O amor dos esposos não é algo meramente acessório; pertence à própria natureza da aliança matrimonial.

Essa compreensão é fundamental. O casal não recebe simplesmente a missão de "tolerar-se" durante toda a vida. É chamado a crescer numa verdadeira comunhão de vida.

E aqui aparece uma das características mais belas da visão católica: o casamento não é somente uma instituição para o bem da sociedade; é também um caminho de santificação.

O marido pode ser instrumento da santificação da esposa, e a esposa pode ser instrumento da santificação do marido. As virtudes necessárias para o casamento — paciência, humildade, castidade, fidelidade, generosidade, capacidade de perdoar, domínio de si — são precisamente virtudes cristãs.

Em outras palavras: o casamento pode ser uma escola de santidade.

 

O matrimônio como imagem do amor de Cristo pela Igreja

É aqui que São Paulo introduz uma das imagens mais profundas de toda a teologia cristã do matrimônio.

Na Carta aos Efésios, ele compara o amor do marido pela esposa ao amor de Cristo pela Igreja:

"Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela."

O padrão não é simplesmente "ame sua esposa como ela merece". O padrão é infinitamente mais elevado: ame-a como Cristo ama a Igreja.

E como Cristo ama a Igreja?

Ele entrega a própria vida.

Portanto, o casamento cristão é uma participação no mistério da entrega de Cristo. O marido não é chamado a dominar a esposa, mas a entregar-se por ela. A esposa não é chamada à submissão servil, mas a uma comunhão de amor na qual os dois procuram o bem do outro.

São João Paulo II desenvolveu profundamente essa compreensão. Em Familiaris Consortio, ele apresenta a família como uma "Igreja doméstica", uma comunidade na qual Cristo está presente e na qual a família participa da missão da Igreja.

Isso significa que o lar cristão pode tornar-se uma pequena comunidade evangelizadora. A maneira como marido e mulher se tratam, como educam os filhos, como enfrentam uma doença, como perdoam uma ofensa e como atravessam uma dificuldade pode ser um testemunho muito mais poderoso do que muitas palavras.


 

A graça não elimina a luta

É importante, entretanto, evitar uma conclusão simplista.

Se um casal católico se divorcia, não podemos concluir que "o Sacramento não funcionou". Tampouco podemos dizer que todo casamento estável é necessariamente resultado de uma fé mais profunda.

A graça não funciona como uma fórmula matemática.

Um cristão continua livre. Pode pecar. Pode ser infiel. Pode abandonar a oração. Pode endurecer o coração. Pode recusar o perdão. Pode colocar seus próprios desejos acima do bem do cônjuge.

O Sacramento oferece uma graça verdadeira, mas a graça pode ser resistida.

É semelhante à luz do sol: o fato de existir luz não significa que uma pessoa seja obrigada a abrir as janelas. Deus oferece a graça; a pessoa pode abrir ou fechar o coração.

Por isso, a vida sacramental do casal é tão importante.

A Missa, a Eucaristia, a Confissão, a oração pessoal e conjugal e a leitura da Palavra de Deus não são acessórios devocionais acrescentados ao casamento. Podem ser meios concretos pelos quais o casal aprende diariamente a viver a graça recebida no Sacramento.

 

Amoris Laetitia: o amor que cresce

O Papa Francisco, em Amoris Laetitia, insiste em uma ideia particularmente importante: o amor matrimonial não é uma realidade pronta e acabada; ele cresce ao longo da vida.

Essa perspectiva é extraordinariamente realista.

Duas pessoas que se casam não são duas pessoas prontas. Elas continuam mudando. Envelhecem. Adoecem. Têm filhos. Perdem parentes. Mudam de profissão. Passam por dificuldades financeiras. Desenvolvem novos interesses. Descobrem defeitos um no outro que não haviam percebido antes.

O casamento, portanto, exige uma renovação permanente do amor.

Francisco insiste na importância da paciência, do perdão e da capacidade de não exigir do outro uma perfeição impossível. O famoso capítulo 4 de Amoris Laetitia, inspirado no hino de São Paulo ao amor em 1 Coríntios 13, mostra que o amor cristão é paciente, bondoso, não procura apenas seus próprios interesses, sabe perdoar e suporta as dificuldades.

Isso tem uma consequência prática enorme: um casamento feliz não é necessariamente aquele em que nunca existem conflitos; pode ser aquele em que os conflitos são transformados em oportunidades de crescimento.

A graça transforma a maneira de enfrentar as crises

Talvez aqui esteja a resposta mais concreta à nossa pergunta inicial.

A graça do Sacramento não significa que o casal nunca ficará cansado um do outro. Significa que, quando o cansaço aparecer, existe uma fonte de força além dos dois.

Não significa que nunca haverá uma discussão. Significa que existe a possibilidade de reconciliação.

Não significa que nunca haverá tentação. Significa que existe força para resistir.

Não significa que nunca haverá sofrimento. Significa que o sofrimento pode adquirir um sentido.

Não significa que o amor será sempre emocionalmente intenso. Significa que os esposos podem continuar amando mesmo quando o sentimento estiver temporariamente obscurecido.

É precisamente aqui que a graça se mostra mais necessária.

Quando tudo vai bem, talvez seja relativamente fácil amar. A grande prova do amor aparece quando amar custa alguma coisa.

E o cristão possui uma referência extraordinária: a Cruz.

Cristo não abandonou a Igreja quando ela se tornou difícil. Cristo amou até o fim.

O matrimônio cristão encontra na Cruz o seu modelo supremo: não uma vida sem sacrifícios, mas uma vida em que o sacrifício pode tornar-se expressão do amor.

 

A resposta à pergunta

Portanto, podemos voltar à pergunta inicial: teria a graça de Deus efeito, quando presente e acolhida pelos dois cônjuges, na duração e na felicidade de um matrimônio?

A resposta católica é claramente sim.

Não podemos transformar essa afirmação em uma equação estatística. Não podemos dizer que determinada porcentagem de casamentos permanece unida "por causa da graça". Deus não pode ser colocado dentro de uma tabela estatística.

Mas podemos afirmar algo ainda mais profundo: o Sacramento do Matrimônio concede aos esposos uma graça real para viverem aquilo que prometeram.

E os dados sobre a prática religiosa tornam-se, nesse contexto, interessantes. Quando homens e mulheres vivem efetivamente a fé, participam da comunidade cristã, rezam, recebem os Sacramentos e procuram seguir os ensinamentos de Cristo, seus casamentos tendem a apresentar maior estabilidade.

Isso não é prova matemática da graça. É, porém, perfeitamente coerente com a visão cristã do ser humano.

O Sacramento não substitui a liberdade dos esposos. Ele a fortalece.

Não substitui o amor humano. Ele o eleva.

Não elimina o sofrimento. Pode dar-lhe sentido.

Não impede a tentação. Oferece força para enfrentá-la.

Não torna desnecessário o perdão. Dá motivos e força para perdoar.

E não promete que duas pessoas jamais se cansarão uma da outra. Promete que Cristo estará com elas enquanto aprendem, dia após dia, a amar.

Por isso, talvez a pergunta mais profunda não seja simplesmente: "Quanto tempo dura um casamento?"

A pergunta cristã é:

"O que acontece quando duas pessoas não colocam apenas a própria força, mas também a graça de Cristo, a serviço da promessa que fizeram?"

A resposta está no coração do Sacramento: Deus não apenas testemunha a aliança matrimonial; Ele entra nela.

E quando os dois esposos procuram viver dessa presença, seu casamento deixa de ser apenas uma relação entre duas pessoas que tentam ser felizes juntas. Torna-se uma vocação: uma participação humana no amor com que Cristo ama a sua Igreja.

É nesse sentido que o casamento pode tornar-se não apenas uma união que dura até a morte, mas um caminho pelo qual duas pessoas chegam juntas à santidade.


 
 
 

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